segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Literatura Cristã Primitiva


Prof. Denes Izidro


Definição da Literatura Cristã Primitiva


Essa é a literatura que o cristianismo cria para si com os próprios meios, porquanto cresceu no chão e no interesse próprio da comunidade cristã, ainda antes de se misturar com o mundo circundante (Overbeck,p.36).
Isso não quer dizer que todas as suas formas são novas – com exceção quiçá dos Evangelhos – e, sim, que, onde a literatura primitiva faz uso de formas preestabelecidas (Apocalipse), ela recorre apenas a formas da literatura religiosa, enquanto ainda se mantém totalmente afastada das formas de literatura mundial profana existente.
Essa literatura cristã primitiva, portanto, é formalmente sui generis, no que diz respeito às convenções literárias seculares de seu tempo.


Delimitação da Literatura Cristã Primitiva


É preciso determinar o volume da literatura do cristianismo primitivo, isto é, ela tem que ser delimitada em relação à subseqüente literatura da Igreja Antiga. A pergunta é sobre se a literatura do cristianismo primitivo se desenvolveu para a literatura da Igreja Antiga, ou seja, para a literatura dos escritores eclesiásticos (a partir de meados do séc.II d.C.), de modo que se trate apenas da distinção de literatura mais antiga e mais recente; ou se cada uma das duas literaturas tem algo tão peculiar que se faz necessária uma delimitação e distinção entre as mesmas.Parece ser esse o ponto.
Franz Overbeck, em seu fomoso ensaio – “Sobre os Inícios da Literatura Patrística” (1882) - situa o começo da literatura da Igreja Antiga na apologética1, a qual faz uso de formas profanas e se dirige a não-cristãos; ele também define essa literatura como “literatura greco-romana de confissão cristã e interesse cristão”. 2
O desaparecimento das formas cristãs primitivas (mais do tipo sui generis), portanto, e a recepção das formas da grande literatura mundial indicam uma mudança fundamental da literatura cristã primitiva para a literatura dos Pais eclesiásticos.
Quanto à abrangência da literatura cristã primitiva, vejamos: Além do NT, temos os escritos dos chamados :
Pais Apostólicos3: Epístolas de Clemente de Roma, Epístolas de Inácio, Epístolas de Policarpo, Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas4, a Didaquê e Fragmentos de Papias e Hegésipo, preservados por Eusébio e Irineu.5
Depois temos os Livros Apócrifos do Novo Testamento ou Novo Testamento Apócrifo: Evangelhos Apócrifos, Atos Apócrifos,Epístolas Apócrifas e Apocalipses Apócrifos.6


Produção Literária Cristã Primitiva na Geografia de Seu Tempo


Sem dúvida, o cristianismo se origina do ministério de Jesus e das primeiras comunidades cristãs na Palestina, se propagando depois para as regiões da Síria e do Egito. Não obstante, sua literatura mais importante desenvolveu-se nas culturas urbanas do Mediterrâneo Oriental, principalmente em Antioquia e nas cidades da região do mar Egeu. E é com base nessas regiões geográficas que têm lugar a produção literária do cristianismo primitivo, sempre com vistas à experiência e as necessidades das comunidades cristãs.


Objetivos do Estudo da Literatura Cristã Primitiva


Mostrar como surgiu a atividade literária dos primeiros cristãos e de que modo os livros refletem a particularidade de seus autores e as condições da época de sua redação.
Abordar o Novo Testamento antes como parte da Literatura Cristã Primitiva, situando-o assim em seu contexto literário e histórico-eclesiástico, para que depois de sua compreensão histórica o possamos compreender teológica e canonicamente.
Conhecer e compreender o significado, motivação e contribuição da literatura Apócrifa do Novo Testamento para a história do cristianismo primitivo e, mesmo, para a interpretação dos documentos neotestamentários (especialmente os Evangelhos).
Descrever os escritos edificantes dos Pais Apostólicos com o fim de compreendermos melhor o ambiente de fé da igreja cristã primitiva e nos deixarmos também ser edificados por eles,como o foram também os primeiros cristãos.


Justificativa para o Estudo da Literatura Cristã Primitiva


Essa literatura reflete a doutrina e prática da igreja cristã primitiva, a qual, por sinal, é o terreno fértil onde são fecundados todos os livros do Novo Testamento.7 Sem dúvida alguma, nossa compreensão do Novo Testamento depende em muito de nossa compreensão das comunidades cristãs primitivas responsáveis pela sua produção.8
Além disso,por terem servido de modelo para os escritos cristãos posteriores,os gêneros literários do Novo Testamento podem ser melhor compreendidos,de caminho inverso,através do estudo e análise desses escritos.9
Os apócrifos permitem vislumbrar a existência de coleções muito antigas de logia de Jesus,de testimonia das Escrituras e/ou tradições orais e/ou escritas sobre Jesus e os Apóstolos.10
Nesse sentido, a contribuição histórica desses escritos para o conhecimento da igreja cristã primitiva é inegável.11


Notas
1 Apologia de Justino, O Mártir, por exemplo.
2 Overbeck,F.Über die Anfäge der patristischen Literatur,1882,Neudruck (reimpressão), Libelli XV,1966.
3 A expressão “pais apostólicos” surgiu no século XVII como designação dos presumidos discípulos de apóstolos, Barnabé, Hermas, Clemente de Roma, Inácio e Policarpo, quando as obras a eles atribuídas foram reunidas e publicadas juntamente com cartas e relatos. No século XIX a coleção foi ampliada com a recém descoberta Didaquê, Cartas de Inácio e fragmentos de Papias preservados por Eusébio e Irineu. A expressão “Pais Apostólicos” portanto não designa um antigo corpo de escritos, mas, sim, é um título editorial moderno, escolhido por falta de outro melhor, para uma compilação de abrangência variável de escritos e fragmentos dos séculos I e II d.C. Estes foram considerados inicialmente apostólicos devido sua suposta “ortodoxia” em oposição ao apócrifos.
4 “O Pastor de Hermas ocupa seu justo lugar nessa coleção, embora seja difícil determinar sua data exata” (Köester,p.13).
5 Não fazemos menção nesse elenco à importante Carta a Diogneto, uma vez que, embora seja frequentemente incluída na lista dos Pais Apostólicos, ela aparenta ser um tratado apologético posterior, talvez final do II século d.C.
6 Os apócrifos do NT são todos os escritos cristãos primitivos que não foram aceitos no cânon,não pertencem aos Pais Apostólicos e fazem alusão ao NT pelo conteúdo,gênero e identificação de autores neotestamentários.São verdadeiros desdobramentos literários, tradicionais e conteudísticos do Novo Testamento - “Re-escritura neotestamentária”.
7 Alguns dos escritos dos Pais Apostólicos, por exemplo, podem ter sido redigidos antes do final do I século, isto é, ainda dentro do contexto histórico formativo do Novo Testamento. Köester, por exemplo, afirma que “1 Clemente, a Epístola de Barnabé e as fontes inseridas na Didaquê foram compostas antes do ano 100 d.C.”.
8 O’Callaghan, José.A formação do novo testamento.Paulinas: São Paulo.p.25.
9 cf. BARRERA,Julio Trebolle.A Bíblia Judaica e A Bíblia Cristã – Uma Introdução à História da Bíblia.São Paulo:Vozes,1999.pg.202s.
10 BARRERA,op.cit.,pgs.285-86.
11 Paulo Siepierski (Siepierski,Paulo & Hinson,Glenn E.Vozes do cristianismo primitivo. Sepal:São Paulo) argumenta sobre a importância do conhecimento histórico sobre a igreja cristã primitiva para a resolução dos dilemas atuais da igreja com base na experiência da igreja cristã primitiva (p.15).

Introdução à Literatura Neotestamentária


Prof. Denes Izidroi

A aproximação exegética,e mesmo hermenêutica do Novo Testamento,de modo preciso e/ou adequado,a saber,condizente com o que era e pretendia ser, depende da compreensão e aceitação de alguns pressupostos fundamentais relacionados à sua natureza e contexto histórico-literário originador. A seguir,portanto,apresentamos algumas dessas concepções,as quais visam proporcionar ao leitor e perscrutador desse complexo canônico uma espécie de “chave de leitura de gênero”.

O Novo Testamento é Constituído por Documentos Circunstanciais

Nenhum dos livros do Novo Testamento é desmotivado, isto é, surgiu em circunstância motivadora neutra ou não-existente. Todos eles são “documentos pastorais” e, portanto, também circunstanciais. Foram escritos em resposta a uma situação real específica na vida da igreja cristã primitiva. O material epistolar constitui o principal exemplo disso, mas não o único – na verdade, até mesmo os Evangelhos, Atos e Apocalipse estão condicionados à uma situação específica da comunidade.
E é justamente pelo fato de terem sido escritos para responder a contingências específicas da igreja, que não podem ser tomados ou interpretados como verdadeiros tratados sistemáticos e completos de doutrina cristã. Em outras palavras, o “silêncio” do NT se deve não à ortodoxia, mas a falta de oportunidade. A teologia que compõe o NT é, portanto, como disse Ladd, uma “Teologia Acidental”. Resultado de acidentes e circunstâncias na vida da igreja primitiva que exigiam respostas pastorais. Se não fosse o acidente da celeuma corintiana sobre a Ressurreição, não teríamos I Co.15 tratando sobre o assunto. Se não fossem os judaizantes da Galácia, não teríamos a magnífica epístola de Paulo aos Gálatas. E assim por diante.
Existe uma “comunidade viva” por detrás dos documentos do NT – eles não se formaram em “mesa redonda” e nem foram reunidas suas tradições em um processo de “recorta-e-cola”.

O Novo Testamento é Constituído por Documentos da História

É equivocado ler o NT apenas como “livro de Deus” e “do céu”. O NT também é um “livro dos homens”, “do mundo” e “da história”. Os autores do NT escreveram seus escritos a partir de suas próprias experiências, sob sua cultura e estruturas sociais de sua época e contexto. Só nos será possível compreender o NT após compreendermos o contexto histórico formativo onde ele é concebido. O contexto histórico-social e religioso do NT são o ambiente de sua “fecundação” e precisam ser considerados cuidadosamente por aqueles que querem compreender estes escritos, pois surgem na história, da história, pela história e para a história.
O ambiente do Novo Testamento era constituído de dois aspectos distintos, mas intimamente relacionados, no que tange à vida do século I: Judaísmo e Helenismo. O Judaísmo abrange a vida, pensamento e produção literária dos judeus; tinha em Jerusalém seu principal centro e na Palestina seu campo principal de atuação. O Helenismo compreende os fatores e condições do mundo gentio, com o qual entrou em contato o cristianismo das origens. O denominamos “Helenismo”, porque a influência da cultura e língua grega em sua vida religiosa, social e intelectual era dominante. Pode-se dizer que ambos contribuíram para a formação do cristianismo, e conseqüentemente do NT, da seguinte forma: os judeus apresentaram dons extraídos de sua história e consciência religiosa, os gregos acrescentaram sua língua expressiva e seu intelecto e os romanos, um mundo organizado. Em outras palavras, o mundo do Novo Testamento era politicamente romano, culturalmente grego, socialmente pagão e religiosamente grego-oriental.

O Novo Testamento é Parte de Um Todo Maior e mais Complexo

A despeito do que a maioria dos cristãos hodiernos deve pensar, a Literatura Cristã produzida pela igreja primitiva não se restringe aos 27 documentos do Novo Testamento. 1 Antes, estes são apenas parte de um todo muito mais amplo e complexo de literatura cristã primitiva. Sem dúvida, o Novo Testamento constitui os primeiros escritos cristãos primitivos, os quais são produto das primeiras igrejas cristãs nos países do mundo mediterrâneo oriental, e também em Roma. Contudo, além desses escritos cristãos primitivos temos também inúmeros outros escritos, os quais pertencem ao mesmo contexto histórico do NT.2
Todos esses escritos, tanto do NT quanto da literatura cristã paralela ou imediatamente posterior a ele, nascem no contexto de expansão e desenvolvimento das comunidades cristãs primitivas, desde os seus inícios até a metade do século II d.C., quando outros gêneros literários cristãos tomam forma.3
O NT, portanto, precisa ser considerado à luz deste contexto literário cristão. O NT é tudo, em relação ao cânon; mas é apenas parte de um todo, em relação à literatura cristã primitiva.

O Novo Testamento é uma das Janelas do Cristianismo Primitivo

Mediante o NT tem sido possível mensurar significativamente os princípios de fé e culto da igreja cristã primitiva. Sua teologia e sua ética podem ser apreendidas com base nos escritos do NT. Neste sentido, o NT constitui numa das principais, se não a mais importante fonte para o estudo da igreja cristã primitiva. O NT é recipiente e depositário de muitas das tradições do cristianismo antigo; seus autores colecionam e editoram essas tradições para a edificação de suas igrejas.
Como os evangelhos não são criações livres de seus autores, mas compilações de fontes e de tradições cristãs orais, também as epístolas não devem ser vistas como produtos das mentes inventivas de pensadores teológicos criativos, mas como elaborações de vários e diferentes materiais tradicionais que eram correntes em Israel, no mundo helenístico-romano e especialmente nas primeiras comunidades cristãs.” Helmut Koester4

Notas

i Exegeta do Novo Testamento, professor e pesquisador nas áreas de Literatura Cristã Primitiva, Literatura Apócrifa e Pseudepigráfica do AT,Novo Testamento Apócrifo e Contexto Histórico-Literário,Língua, Literatura,Exegese, Teologia do Novo Testamento e outras disciplinas na área de Bíblia e seu contexto histórico-literário, na Faculdade Teológica Cristã do Brasil (DF).© todos os direitos autorais desta obra devem ser preservados. Pós-graduando em História do Cristianismo Antigo (UnB).
1 Embora apenas esses sejam de fato considerados canônicos.
2 Cf. Köester,Helmut.Introdução ao novo testamento – História e literatura do cristianismo primitivo.vol.2.Paulus: São Paulo.p.i.
3 Estudiosos como F.Overbeck (Über die Anfäge der patristischen Literatur,1882), argumentam que a literatura cristã posterior ao II século d.C. segue mais as convenções literárias profanas de seu tempo, enquanto que a literatura cristã primitiva é do tipo sui generis, em sua forma geral.
4 Köester,Helmut.Introdução ao novo testamento:História e literatura do cristianismo primitivo. vol.2. Paulus:São Paulo.pg.72.

Bibliografia:

Baxter, J.Sidlow. (1985). Examinai as Escrituras. São Paulo: Vida Nova;
Carson, D.A., Moo, Douglas J., Leon Morris. (1998). Introdução ao novo testamento. São Paulo: Vida Nova;
Dautzemberg, J., Schreiner, G. (1977). Forma e exigencias do novo testamento. São Paulo: Paulinas;
Gundry, Robert H. (1981). Panorama do novo testamento. São Paulo: Vida Nova;
Ladd, George Eldon.(1980). Apocalipse introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova;
Moule, C.F.D. (1979). As origens do novo testamento. São Paulo: Paulinas;
Summers, Ray. (1972). A mensagem do apocalipse: digno é o cordeiro. Rio de janeiro: juerp;
Tenney, Merrial C. O Novo testamento sua origem e análise. São Paulo: Vida Nova;
Kümmel, W.G. (1982). Introdução ao novo testamento. Paulinas: São Paulo;
Lightfoot,Neil R.(1981).Comentário bíblico vida cristã – Hebreus. Vida Cristã: São Paulo;
Köester,Helmut.Introdução ao novo testamento: História e literatura do cristianismo primitivo.vol.2.Paulus:São Paulo;
Vielhauer,Phillipp.História da literatura cristã primitiva.Academia Cristã: São Paulo;
Broadus,David Hale.Introdução ao estudo do novo testamento.Hagnos:São Paulo;
Cullmann, Oscar.(1984).A formação do novo testamento. Ed.Sinodal: Rio Grande do Sul;
Elwell, Walter A. & Yarbrough, Robert W. (2002). Descobrindo o novo testamento. Cultura Cristã: São Paulo;
Ladd, George Eldon. (2003). Teologia do novo testamento. Hagnos: São Paulo;
Pack, Frank. (1983). Comentário bíblico: O evangelho de João. Vida Cristã: São Paulo;
Wilkinson, Bruce & Boa, Kenneth.(2000).Descobrindo a bíblia. Candeia: São Paulo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Teantropia, o Mistério do Divino no Humano no Processo de Formação da Bíblia



O que vem a ser teantropia? Esse termo foi cunhado para descrever ou definir a natureza dúplice de cristo Jesus, como sendo verdadeiro Deus (Theós=Deus) e verdadeiro homem (ánthropos= homem).
O que se pretende dizer aqui é que, à semelhança da natureza de Cristo, a Escritura também é, quanto à sua própria natureza, verdadeiramente teantróprica, isto é, um livro ao mesmo tempo humano e divino. Em outras palavras, a Escritura constitui-se na Palavra de Deus em linguagem condicionadamente humana.
Contudo, não obstante pareça óbvia essa constatação sobre a Bíblia, na prática, e mesmo na teoria, muitos abordam a Escritura de modo não condizente. Na verdade, duas abordagens ao mesmo tempo antagônicas e extremistas com respeito à Bíblia tem sido considerada em sua interpretação. Se por um lado os fundamentalistas lêem a Bíblia apenas como livro de Deus, ignorando seu contexto histórico formativo e suas configurações sócio-culturais originais, os liberais,por outro lado, a vêem como um livro meramente humano, apenas um testemunho da fé de civilizações antigas, a saber, judaísmo (AT) e cristianismo (NT), sem nenhuma função normativa ou qualquer condição sobrenatural.
Vale lembrar que ambas as posições são extremistas e reducionistas. Reducionistas porque reduzem a Bíblia ora a um oráculo divino “psicografado”, ora a um mero documento histórico. Concomitantemente, ambos os conceitos em relação à Escritura estão corretos e incorretos. Estão corretos quando tomados de modo mutuamente complementar, e incorretos ao se excluírem reciprocamente.
Ler a Bíblia apenas como produto humano é reduzi-la a um mero produto do meio, é ignorar sua mensagem salvífica e normativa para a humanidade; é descrer de sua origem divina e de todas as importantes implicações que resultam disso. Por outro lado, considera-la apenas como livro de Deus é conceber uma espécie de “docetismo”[1] que ignora os condicionamentos históricos, sociais, culturais, econômicos e religiosos através dos quais nasceu e se formou a Bíblia. Reconhecer a configuração histórico-social-humana das Escrituras não é, necessariamente, negar a sua Revelação, antes é entender que essa mesma revelação se deu através da comunicação, com todas as suas idiossincrasias contextuais, e das experiências dos homens. Como bem colocou o biblista Raymond Brown, é o “mistério do divino no humano”. [2] Assim como Cristo Jesus é a encarnação de Deus na terra, na história e no homem, a Bíblia é a encarnação da mensagem de Deus no homem, pelo homem, com o homem e para o homem. É uma expressão cabal da imanência de Deus no mundo.
Mas assim como o mistério da natureza humano-divina de Cristo foi mal compreendida, mal aplicada e debatida, assim é com respeito à origem humano-divina da Palavra de Deus. O problema da natureza de Cristo originou excessos e equívocos sem conta quanto a como se deveria conceber a pessoa de Jesus. Isso fica claro a partir das diversas heresias cristológicas, tais como o arianismo,docetismo,adocionismo,etc. Assim como fora difícil para os antigos cristãos compreenderem que Jesus era Deus e homem simultaneamente, assim é hoje em relação à natureza teantróprica da Escritura. Para muitos a melhor solução parece ser o extremismo, isto é, reduzir a Bíblia a um livro apenas divino ou apenas humano. O fato é que tais posições não são e nem devem ser excludentes. A Bíblia é um livro humano escrito dentro de contextos históricos e humanos, numa linguagem humana e a partir dos condicionamentos e experiências de seus autores. Como bem observou Eduardo Arens, a inspiração bíblica não consiste numa “espécie de poção mágica que protege o escritor sagrado de todo contágio histórico e cultural que pudesse distorcer o caráter absoluto dessa palavra de Deus”.[3] Aprouve a Deus se encarnar na história a fim de revelar sua mensagem de salvação aos homens. Ao mesmo tempo a Bíblia é um livro de Deus – não obstante seus condicionamentos histórico-sócio-antropológicos, a Escritura se impõe à humanidade através dos séculos como uma mensagem transformadora de Deus aos homens. Desde suas profecias cumpridas até sua fantástica unidade, a Escritura comprova ser, no mínimo, um livro sobrenatural e normativo.
Portanto, uma vez que a concepção que temos da Bíblia ditará nossas interpretações da mesma, precisamos, analogamente à Cristo, conceber a Bíblia como “verdadeiro Deus” e “verdadeiro homem”. Como exegeta não posso ser indiferente à configuração histórica original da Bíblia, isto é, sua humanidade; mas como crente também não posso ser insensível à sua mensagem salvífica, isto é, sua divindade.
Prof.Denes Izidro

[1] Versão do pensamento gnóstico que negava a encarnação de Cristo – Cristo parecia humano, mas era exclusivamente divino.
[2] Brown, Raymond E. As recentes descobertas e o mundo bíblico.Loyola:São Paulo.pg.11.
[3] Arens,Eduardo.Ásia menor nos tempos de paulo,lucas e joão.Paulus:São Paulo.pg.23.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Agraphos - As "Outras" Palavras de Jesus Cristo


Existem Palavras de Jesus Fora dos Evangelhos Canônicos?

· Sem dúvida, há palavras de Jesus fora dos Evangelhos canônicos e até mesmo de todo o Novo Testamento, como atestam as seguintes evidências.
· Primeiramente devemos considerar o fato de que os Evangelistas canônicos não tinham a pretensão de expor tudo o que Jesus disse e fez, mas tão somente fizeram uso daquilo que correspondia às suas diferentes perspectivas teológicas, moldadas por sinal com base nas exigências das comunidades destinatárias (cf.Jo.20.30s;21.25;Mc.1.21,22;4.1,2). Portanto, muitas palavras e atos de Jesus, não relatados nos Evangelhos canônicos, ainda nos são desconhecidos.
· Em segundo lugar, há ditos de Jesus no próprio Novo Testamento que não podem ser encontrados nos Evangelhos canônicos (cf.ITs.4.15,16;At.1.5,7,8;At.20.35[1]), portanto são ágrafos de Jesus em relação aos Evangelhos canônicos.
· E em terceiro lugar, como a tradição sobre os ditos e atos de Jesus fora transmitida inicialmente de forma oral e outros Evangelhos e escritos foram confeccionados para transmitir a tradição Jesuína, é de se esperar que haja de fato algo mais sobre Jesus e suas palavras fora dos Evangelhos canônicos. Sobre tal argumento assim se pronunciou Jeremias: “o número das tradições referentes às palavras de Jesus, que corriam de boca em boca no dilatado espaço eclesial, era tão grande que nossos quatro evangelhos não podiam englobar todas.....Deste modo se explica que ao lado dos nossos quatro evangelhos existia desde o princípio uma tradição extra-evangélica tão variada relativa a Jesus”.[2]


Onde Estão os Ágrafos de Jesus? – Fontes da Pesquisa

· Os inumeráveis ágrafos de Jesus estão preservados nas mais diversificadas literaturas cristãs, judaicas e islâmicas, como veremos a seguir, além de se apresentarem como variantes textuais entre os manuscritos do NT.
· No Novo Testamento: como já vimos, existem ágrafos de Jesus no próprio NT, proferidos pelo Jesus terreno (ITs.4.15,16;At.20.35) e pelo Jesus ressuscitado (At.1.5,7,8) e glorificado (At.9.4-6,10-12,15s;IICo.12.9).
· Nas Variantes Textuais dos Mss. dos Evangelhos: há palavras de Jesus em alguns manuscritos do NT que não aparecem em outros mss. dos Evangelhos; como exemplo disso temos os textos variantes de Jo.7.53-8.11;Mc.16.9-20 e Lc.6.5, onde se conta a história do homem que trabalhava no sábado.[3]
· Evangelhos e Escritos Apócrifos: em textos não-canônicos como o EvTomé, EvHeb, EvNaz, AtosPed e outros escritos apócrifos há muitos ditos atribuídos a Jesus.
· Pais da Igreja: uma das fontes mais ricas para o estudo dos ágrafos são, sem dúvida, os escritores cristãos primitivos até o ano 500 d.C.[4] Joaquim Jeremias enumera os seguintes escritores cristãos primitivos que preservam ágrafos de Jesus: Pápias ( por volta de 130 d.C.),IIClem (antes de 150 d.C.),Justino (morto por volta de 165 d.C.), Irineu (morto por volta de 200), Clemente de Alexandria (morto antes de 215), Tertuliano (aproximadamente 160-220), Hipólito (morto em 235), Orígenes (morto por volta de 253-254), Tratado do Pseudo-Cipriano,De duobus montibus (antes de 240), Tratado do Pseudo-Cipriano,De aleatoribus (por volta de 300), Lactâncio (por volta de 300), Alexandre de Alexandria (313-345), Eusébio de Cesaréia (morto em 339), Afraates (escreveu nos anos 337-345), Efrén (por volta de 306-373), Líber graduum (sírio), primeira metade do século IV, Dialogus de recta fide (século IV), Homilias pseudo-clementinas (entre 325 e 381), Simeão da Mesopotâmia (final do século IV), Epifânio da Judéia + (por volta de 315-403), Jerônimo (por volta de 347-420), Dídimo, o cego, de Alexandria (morto por volta de 398), Sócrates (historiador da igreja, morto depois de 439), Vita S.Syncleticae do pseudo-Atnasio (provavelmente do final do século V).
· O Talmude: segundo J.Jeremias há pelo menos duas passagens no talmude que trazem palavras de Jesus, todavia com fins depreciativos. [5]
· Autores Maometanos: há de fato inúmeras palavras atribuídas a Jesus Cristo em escritos do Islã. Estes em parte são ampliações ou modificações dos sinópticos, em parte ficções lendárias.[6]


Prof.Denes Izidro

[1] Não obstante, Vielhauer,op.cit.,pg.645,nota de rodapé nº1073, e Joaquim Jeremias,op.cit.,pg.69, entendem que esse dito foi atribuído a Jesus equivocadamente, pois é um provérbio greco-romano citado por vários autores.
[2] Jeremias,op.cit.,pg.22.
[3] Esse último ágrafo que se origina da tradição manuscrita variante está entre os ágrafos de nosso apêndice.
[4] Cf.Jeremias,op.cit.,pg.47.
[5] Ibid,pg.55s. Jeremias dá valor a uma dessas passagens por nos apresentar uma versão aramaica de Mt.5.17, possivelmente original.
[6] Vd.ibid.,pg.57. Jeremias cita um ágrafo maometano de Jesus: “Disse aos filhos de Israel: - Onde cresce a semente? – No pó da terra – Em verdade vos digo: a sabedoria somente pode crescer no coração que tem chegado a ser como o pó.”.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

QUEM PRECISA DE EXEGESE BÍBLICA? O PROBLEMA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA E A EXEGESE


Prof.Denes Izidro1

O departamento da teologia responsável pelas questões relacionadas à interpretação da Bíblia é a Teologia Exegética. É neste campo que a problemática metodológica e filosófica2 da interpretação bíblica tem seu lugar. A Teologia Exegética, por vias da Hermenêutica, estabelece métodos, leis e/ou princípios através dos quais pensa-se compreender melhor o texto bíblico histórico. Metodologias de Exegese também são descritas por esse campo da teologia com fins à sua coerente interpretação. Mas é mesmo necessário uma metodologia pré-estabelecida para a interpretação de textos bíblicos? Se a resposta é “sim”, a pergunta é “porque?”. Tal pergunta nos servirá de condutor para a compreensão da problemática e importância da Exegese Bíblica.
Há de fato muita dificuldade a espera daqueles que pretendem ler a Bíblia aleatoriamente ou sem critérios proporcionais à sua natureza histórico-literária. Devido sua própria natureza e circunstâncias em que se formou, a Bíblia possui algumas barreiras que tornam sua interpretação no mínimo problemática ou até mesmo inacessível. Que barreiras são essas, então?

Barreira Histórica

A primeira barreira com a qual nos deparamos quando pretendemos interpretar a Bíblia é a barreira histórica. Ou seja, a Bíblia foi escrita ou formada em circunstâncias e épocas totalmente distantes e diferentes da nossa realidade de hoje. A Bíblia é, sem dúvida, um livro histórico, nascido e configurado dentro de matizes históricas específicas. Seu contexto histórico e destinatários originais são por nós muitas vezes desconhecidos quanto a sua natureza e problemáticas peculiares. Em outras palavras, a Bíblia não foi, do ponto de vista histórico, escrita para nós hoje do século XXI. Há um grande abismo histórico e cronológico entre nós hoje e os antigos autores bíblicos. A Bíblia é histórica, nasceu na história, pela história e para a história. Portanto, toda leitura bíblica precisa ser uma leitura histórica. Se não apreendermos a “cosmovisão” do período histórico em que a Bíblia nasceu e se formou, pagaremos o preço de não compreende-la correta e/ou abrangentemente.

Barreira Sócio-Cultural

Além da barreira histórica, nos deparamos também com o que podemos chamar de barreira sócio-cultural. Esta diz respeito ao mundo social, econômico, político e religioso em que se formou a Bíblia. É sabido que a bíblia se originou na estrutura sócio-cultural do Antigo Oriente Próximo, mais especificamente na Palestina, como seu cenário geográfico principal. As diferenças culturais entre Ocidente e Oriente são óbvias. Estamos diante de uma literatura antiga emoldurada dentro de um contexto judaico-helenista com suas mais ricas peculiaridades. A ignorância quanto às estruturas sociais e culturais da época e ambiente onde nasceu a Bíblia torna totalmente inviável qualquer aproximação à sua interpretação.

Barreira Lingüística

Como se não bastassem as dificuldades hermenêuticas alistadas até aqui, temos ainda o problema da linguagem peculiar da Bíblia. Trata-se da barreira lingüística. A Bíblia não foi escrita em nossa língua, mas em três línguas bastante arcaicas, a saber, Hebraico, Aramaico e Grego. Nossas traduções no vernáculo tornam o texto apenas acessível aos leigos, contudo, não podem jamais substituir os originais3. Entender a sintaxe original do texto bíblico possibilitaria uma maior compreensão do texto Sagrado. Além do mais, temos também que lidar com o problema da linguagem e estilos específicos com que os autores bíblicos escreveram seus textos, bem como os gêneros literários específicos que utilizaram na configuração de suas obras.

Metodologia Necessária

Outras dificuldades para a interpretação bíblica poderiam ser destacadas aqui, contudo, estas são suficientes ao menos para demonstrar o problema da sua interpretação e a conseqüente necessidade de uma Metodologia de interpretação que nos ajude a transpor cada um destes obstáculos.4 Pois fica óbvio, pela natureza intrínseca da própria Escritura, que sem a aquisição de pré-requisitos históricos e literários, relacionados à formação da bíblia, nos será impossível a sua correta interpretação. E é para a “solução”5 desse problema hermenêutico que surge a Exegese como uma ferramenta indispensável para a mais correta e precisa interpretação do texto bíblico. Por meio da Exegese Bíblica poderemos transpor estas barreiras e nos aproximar cada vez mais do sentido original-histórico das Escrituras. Seu uso e aplicação são por demais importantíssimos se quisermos prosseguir na carreira dos Estudos Bíblicos. A Exegese Bíblica nos levará através da história e cultura em que se formaram os textos da Bíblia;como também nos capacitará a compreender as estruturas e o funcionamento da linguagem bíblica, e desse modo nos colocar, o quanto for possível, em contato com o significado histórico do texto bíblico e a intenção autoral.
NOTAS

1Denes Izidro é professor e pesquisador nas áreas de Literatura Cristã Primitiva, Literatura Apócrifa e Pseudepigráfica do AT, Novo Testamento Apócrifo e Contexto Histórico-Literário,Língua,Literatura, Exegese e Teologia do Novo Testamento.

2Sobre discussões filosóficas a respeito da interpretação bíblica confira a importante obra de Ricouer: Ricouer,Paul.Ensaios sobre a interpretação bíblica.São Paulo: Novo Século.

3Há também um outro problema: o “problema textual”, o qual diz respeito a reconstrução dos manuscritos originais da Bíblia Sagrada pelo fato dos mesmos não nos serem disponíveis hoje, senão através de milhares de cópias e versões antigas. É tarefa da “Crítica Textual” reconstruir, na medida do possível, o texto original da Escritura Sagrada.Esse é, portanto, um outro problema ao qual tem de se ater qualquer estudioso sério dessa mesma Escritura.Para uma introdução à “Crítica Textual”, quanto à sua definição, metodologia e resultados, consulte a satisfatória obra de Parosch: PAROSCH,W.Crítica textual do novo testamento.São Paulo:Vida Nova,1993.

4Para uma discussão mais ampla sobre a necessidade da Hermenêutica e da Exegese bíblicas, consulte as seguintes obras: Fee,Gordon D.;Stuart,Douglas.Entendes o que lês?:Um guia para entender a bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica.São Paulo:Vida Nova,1984.pgs.13-27.Fee e Stuart discutem sobre “A Necessidade de Interpretação” técnica do texto bíblico;SILVA,Moisés.Quem precisa de hermenêutica?.In: KAISER,Walter C.Jr.;SILVA,Moisés.Introdução à hermenêutica bíblica.São Paulo:Cultura Cristã,2002.pgs.13-23. Moisés Silva destaca a importância da hermenêutica/exegese de conformidade com a natureza “humana” das Escrituras;VIRKLER,Henry A.Hermenêutica:Princípios e processos de interpretação bíblica.São Paulo:Vida,1987.pgs.9-33.Henry Virkler busca demonstrar o que ele chama de “base teorética e bíblica da necessidade da hermenêutica”.

5O autor desse texto não ignora que mesmo a exegese bíblica científica, com todos os seus resultantes desenvolvimentos, não pode, nem tem podido resolver todos os problemas relacionados à interpretação bíblica. Na verdade, ainda há problemas complexos e “insolúveis” em alguns aspectos da interpretação, como, por exemplo, o problema da contextualização, da subjetividade do leitor/intérprete, das limitações de dados históricos sobre personagens, povos, comunidades e acontecimentos da Bíblia, a cronologia, a intenção autoral,etc.